
Resumo:
As experiências no começo da vida exercem influência em padrões de comportamentos da vida adulta.
Estudos comprovam que a experiência de estresse emocional precoce, inclusive os maus-tratos, levam a déficits em funções neurocognitivas, como atenção, inteligência, linguagem, funções executivas e tomada de decisões, assim como alterações no hipocampo, corpo caloso, córtex pré-frontal e córtex cingulado anterior.
Violência psicológica e contexto familiar de adolescentes usuários de serviços ambulatoriais em um hospital pediátrico público terciário
Cecy Dunshee de AbranchesI; Simone Gonçalves de AssisII; Thiago de Oliveira PiresII
IInstituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes. Av. Rui Barbosa 716/2º prédio dos fundos, Flamengo. 22.250-020 Rio de Janeiro RJ. cecy@iff.fiocruz.br
IIEscola de Saúde Pública Sérgio Arouca, Claves, Fiocruz
Introdução
O
fenômeno da violência, atingindo parcela importante da população e
repercutindo significativamente sobre a saúde das pessoas, configurou-se
como um problema de Saúde Pública relevante, tornando-se um desafio
para os gestores do Sistema Unificado de Saúde (SUS)1-3. Além
da magnitude da mortalidade, a morbidade das vítimas de violência
delegou ao sistema de saúde os desafios de construir e consolidar outras
formas de abordagem na atenção, prevenção e promoção de saúde3.
Diferentes
formas da violência existentes no país têm impacto direto sobre as
famílias. Estas podem tanto exercer cuidado e proteção sobre a prole
como podem ser agentes da violência. O domicílio é local privilegiado
para a ocorrência de grande parte dos eventos violentos que acometem
crianças e adolescentes4,5. Os agravos decorrentes dependem
da idade da criança/adolescente, da frequência com que ocorre o tipo de
abuso, da relação de proximidade que ela tem com o autor da agressão e
das consequências dessa situação na vida6. O setor saúde, por
ter um papel privilegiado junto ao grupo familiar, se constitui em um
dos setores sociais capazes de atuar preventivamente sobre as formas de
violência sofridas e praticadas no ambiente familiar7.
Pesquisas
científicas indicam prejuízos à saúde e ao crescimento e
desenvolvimento de crianças e adolescentes, a curto e longo prazo,
quando há a exposição à violência1,8-12. Sendo essas faixas
etárias, períodos muito relevantes para a maturação do cérebro, as
experiências no começo da vida exercem influência em padrões de
comportamentos da vida adulta. Estudos comprovam que a experiência de
estresse emocional precoce, inclusive os maus-tratos, levam a déficits
em funções neurocognitivas, como atenção, inteligência, linguagem,
funções executivas e tomada de decisões, assim como alterações no
hipocampo, corpo caloso, córtex pré-frontal e córtex cingulado anterior13,14 e podem alterar a função do eixo hipotálamo-pituitária-adrenal15,que
tem sido associada com as desordens depressivas e a reação de tropismo
do hormônio cortisol, assim como o comportamento do indivíduo16.
Pesquisas
investigam a associação do aumento da secreção do cortisol com a
exposição à violência na infância, como: estudo longitudinal com 236
crianças (idade média de 7,6 anos) encontrou a associação dos
maus-tratos infantis com as funções sociais (comportamento disruptivo e
agressivo) e altos níveis de cortisol, após um ano de investigação17;
outro estudo encontrou o aumento da reação ao cortisol para estresse
psicológico em adolescentes com depressão severa com história de
maus-tratos na infância18.
Uma
das formas de maus-tratos contra crianças e adolescentes de difícil
detecção, porém muito lesiva para a formação do indivíduo, é a violência
psicológica (VP). Esta ocorre, quando os adultos sistematicamente
humilham, demonstram falta de interesse, tecem críticas excessivas,
induzem culpa, desencorajam, ignoram sentimentos ou cobram
excessivamente a criança ou o adolescente19.
Diferentes
ângulos têm sido adotados pelos autores ao estudarem VP na infância.
Uns focalizam a conceituação no comportamento dos pais, em que estes
repetidamente convencem a criança de que ela é a pior, não amada, não
querida, ou que seu único valor é comparado com a necessidade dos outros20,21. Outros sinalizam a VP como ponto central do abuso infantil e da negligência22, e podendo causar mais danos no desenvolvimento infantil do que a violência física23.
A
visibilidade da VP na infância e adolescência no contexto familiar vem
aumentando na última década, especialmente através de estudos
epidemiológicos24, como a ocorrência de 10-20% de VP severa
em crianças e 50% em adolescentes, em estudo com uma amostra
representativa nacional com 991 pais americanos25. Outros
estudos mostram prevalências diferenciadas: 50% em amostra de 217
estudantes (14-18 anos) do sexo feminino, que vivem em Bedouin-Arab,
Israel26; 48% em amostra de 1.685 estudantes (11-19 anos) de escolas públicas e privadas do Município de São Gonçalo (RJ)27;
29% em amostra de 1.293 crianças/adolescentes (0-17 anos) registradas
em Conselhos Tutelares de Feira de Santana (BA) em 2003 e 200428;
94,8% em amostra de 524 acompanhantes de crianças (1-12 anos) em dois
hospitais de emergência no Município do Rio de Janeiro (RJ)29 e 96,7% em amostra sistemática de 278 crianças adscritas ao Programa Médico de Família de Niterói (RJ)30.
Estudo
com 668 mulheres pacientes de uma clínica ginecológica americana, com o
objetivo de conhecer os efeitos dos maus-tratos infantis sobre a vida
adulta, encontrou que o abuso mais relatado foi a VP (37,4%)31;
em outro estudo com amostra de 205 mulheres em serviço de atenção
básica de saúde americana encontrou a VP sofrida na infância associada
com problemas físicos e psicológicos (ansiedade, depressão, estresse
pós-traumático, ideação suicida)32. A VP está associada também à disfunção de personalidade no adulto jovem10 e com baixa competência socioemocional na adolescência9.
Devido
aos agravos que a exposição à VP tem sobre o crescimento e o
desenvolvimento de adolescentes e da escassez de estudos que retratem
este tema em ambulatórios de serviços de saúde, buscou-se neste artigo
estimar a prevalência da VP e avaliar a associação com fatores
sociodemográficos, estrutura e relacionamento familiar e com vitimização
por formas de violência física e sexual em usuários de serviços
ambulatoriais de um hospital pediátrico público terciário.
Metodologia
O
artigo se baseia em inquérito epidemiológico realizado entre janeiro e
setembro de 2011, com amostra de 229 usuários de 11 a 18 anos e 221
responsáveis destes, num hospital pediátrico público terciário,
localizado no Município do Rio de Janeiro (RJ). Este é um hospital
referência para o SUS na saúde de crianças, adolescentes e mulheres,
tendo sua demanda referida de todas as áreas programáticas do município
do Rio de Janeiro, assim como de outros municípios e estados.
Um
total de 229 adolescentes de 11 a 18 anos foi entrevistado na pesquisa,
sendo o tamanho de amostra obtido condizente com o atendimento
oferecido a pacientes da faixa etária de 11-18 anos nos três
ambulatórios do hospital. A faixa etária investigada foi decorrente da
escolha da escala YRS (Youth Self-Report)33, cuja aplicabilidade é em adolescentes de 11 a 18 anos.
Os
critérios de inclusão dos sujeitos de pesquisa foram: adolescente de
ambos os sexos, na faixa etária citada, com capacidade intelectual para
responder e compreender as perguntas do questionário, acompanhados por
responsáveis que convivam com os mesmos durante o último ano e que
possam fornecer informações sobre o adolescente; os adolescentes de 18
anos completos podiam estar desacompanhados.
Através
de entrevistas presenciais, as informações de interesse foram colhidas
pela pesquisadora principal e por duas assistentes previamente
treinadas. As entrevistas foram realizadas nas salas de espera dos
ambulatórios selecionados, enquanto os usuários aguardavam a consulta
agendada.
Realizou-se
o inquérito epidemiológico através de dois questionários constituídos
por escalas selecionadas (com validade e confiabilidade reconhecidas),
que permitiram investigar os conceitos de interesse para o estudo, sendo
um questionário para os responsáveis e outro para as
crianças/adolescentes. O questionário dos adolescentes foi composto por perguntas sobre escolaridade, raça e pelas escalas de: VP34, resiliência35,36 e YRS33 (que estima a presença de problemas de saúde mental).
O instrumento dos responsáveis
foi composto por perguntas sobre: variáveis sociodemográficas;
relacionamento familiar e envolvimento familiar com o adolescente
atendido no serviço; e a escala Self-Reported Questionnaire/SRQ-2037,
que é um instrumento que permite avaliar a suspeição de transtornos
psiquiátricos menores, mas não a detecção de distúrbios psiquiátricos
específicos ou níveis de intensidade.
As principais variáveis e medidas utilizadas foram:
a) Os fatores sociodemográficos relevantes ao estudo (sexo, raça, faixa etária, escolaridade do entrevistado e de seus responsáveis);
b) Nível socioeconômico das famílias: segue
o critério de classificação econômica da Associação Brasileira de
Empresas de Pesquisa (ABEP). Estimador da capacidade de consumo, a
partir de indicadores, como: televisão a cores, banheiro, automóvel,
empregada mensalista, geladeira duplex ou freezer e grau de instrução do
chefe da família. Estratos A, B e C correspondem às camadas alta e
média; e D e E às camadas populares.
c) O ambiente de convivência familiar
do entrevistado (estrutura familiar com pais juntos, separados, pais
adotivos, sem ambos os pais ou família monoparental; relacionamento
familiar com pai, mãe e irmãos, diálogo familiar e respeito na família;
convivência, compreensão e aceitação familiar);
Funcionamento geral da família, avaliado pela General Functioning Scale of the McMaster Family Assessment Device38,
que inclui 12 perguntas: é difícil planejar atividades familiares,
porque há desentendimentos; em tempos de crise, pode-se buscar ajuda uns
nos outros; não se pode conversar na família sobre a tristeza que
sentem; cada pessoa é aceita pelo que é; evita-se discutir medos ou
preocupações; mostram-se sentimentos uns pelos outros; sentimentos ruins
na família; sentir-se aceito pelo que é; dificuldade em tomar decisões
em família; ser capaz de tomar decisões; não se dar bem juntos; confiar
uns nos outros. As opções de respostas oscilam de: concordo totalmente a
discordo totalmente (1-5 pontos), com valores maiores, significando
melhor funcionamento geral da família. Neste artigo avalia-se o precário
funcionamento familiar por resultados na faixa de um desvio padrão
abaixo da média e o funcionamento regular ou bom acima deste nível.
d) Envolvimento parental:
a ausência (crianças com resultados caindo na faixa de um desvio padrão
abaixo da média) e a presença de envolvimento parental, aferido pelas
seguintes perguntas: com que frequência o responsável elogia a criança,
dizendo coisas, como: "Muito bom!" ou "Que coisa legal você fez!" ou
"Isso está indo bem"!; com que frequência o responsável e a criança
conversam ou brincam um com outro, focando atenção um no outro por cinco
minutos ou mais, apenas por diversão?; com que frequência o responsável
e a criança riem juntos?; com que frequência o responsável faz alguma
coisa especial com a criança, que ela gosta?; com que frequência o
responsável pratica esportes, hobbies ou jogos com a criança?;
com que frequência o responsável lê com a criança?. São quatro opções de
respostas, valendo de 1 a 4 pontos: sempre, muitas vezes, poucas vezes e
nunca. Os escores maiores do que o desvio padrão abaixo da média
significam a existência de envolvimento do responsável com a criança.
e) A escala Self-Reported Questionnaire/SRQ-2037,
que é um instrumento que permite avaliar a suspeição de transtornos
psiquiátricos menores, mas não a detecção de distúrbios psiquiátricos
específicos ou níveis de intensidade, é composta por 20 itens (sim/não),
englobando sintomas psicossomáticos, sintomas depressivos e sintomas de
ansiedade, onde a presença de 8 ou mais sintomas para as mulheres e 7
para os homens caracterizaria a existência do transtorno.
Como variável de exposição, investigou-se o sofrer VP de pessoas da família, que é mensurada através da escala específica39 e
que avalia as experiências vividas por jovens que foram diminuídos em
suas qualidades, capacidades, desejos, emoções e também se foram
excessivamente cobrados por pessoas significativas. É constituída por 18
itens com opções de respostas que variam do nunca até o sempre, sendo
adaptada transculturalmente à realidade brasileira34,
apresentando as propriedades psicométricas de α de Cronbach de 0,91 e
Coeficiente de Correlação Intraclasse (ICC) de 0,8629. Os resultados
obtidos na avaliação da validade de constructo pelas autoras mostraram
evidências da adequação da versão proposta. Imediatamente após a
aplicação da escala foi indagado ao adolescente quais pessoas
significativas mais agiram com VP sobre o adolescente: pai, mãe,
madrasta, padrasto, irmãos, tios, avós e outros.
O
escore da escala de VP foi definido como a razão entre o somatório dos
pontos associados às frequências de cada um dos itens (de 1 - nunca a 5 -
sempre) e a pontuação máxima que seria alcançada (90) multiplicada por
100. O ponto de corte foi estabelecido como valores acima e abaixo do
terceiro quartil, sendo categorizadas como ausente a moderada (que
inclui adolescentes que respondem nunca, às vezes ou raramente na
maioria dos itens) e severa (frequências elevadas na maioria das
respostas - sempre/quase sempre).
A
análise dos dados foi composta por frequências simples de cada uma das
variáveis que compõem o banco. Foram utilizadas tabelas de contingência e
testes de associação (qui-quadrado de Pearson e teste exato de Fisher
para tabela 2x2 com nível de significância de 5%), para se verificar a
relação entre VP e outras variáveis, que, segundo a literatura, haveria
algumas possíveis ligações. Medidas de associação (razão de chances)
também foram utilizadas com intervalos de confiança de 95%.
Este estudo observou as diretrizes da Resolução 196/9640
do Conselho Nacional de Saúde e os princípios da Declaração de Helsinki
aprovados pelo Comitê de Ética em Pesquisa do hospital, local onde esta
ocorreu. As entrevistas foram realizadas mediante a assinatura do Termo
de Consentimento Livre e Esclarecido pelo responsável pelo adolescente.
Resultados
A
amostra foi composta por 229 adolescentes de 11 a 18 anos, com idade
média de 13,5 anos (desvio padrão = 2,0), sendo 53,2% do sexo masculino.
A cor da pele/raça autorreferida pelos entrevistados foi: branca 33,8%,
preta 19,5%, parda 42,4% e amarelo/indígena 4,3%. Um total de 83,5% dos
adolescentes pertence aos estratos sociais populares (C e D).
Encontrou-se que 14,3% dos entrevistados apresentaram uma defasagem na
escolaridade de dois ou mais anos (relação entre idade cronológica e
série declarada).
De
acordo com o critério adotado para definir VP severa, tem-se que 61
crianças/adolescentes (26,4%) se enquadram neste quadro. Este achado
indica que a VP é uma forma de comunicação familiar corriqueira (um em
cada quatro adolescentes assim vivem.
Outro
aspecto que reitera este achado é que apenas 5 (2,2%) adolescentes
responderam nunca aos 18 itens de VP indagados na pesquisa. Estes cinco
casos foram incluídos na categoria VP ausente a moderada, que é
essencialmente composta pelos que a sofrem em frequência menor, na
maioria dos itens da escala (entre 93,5% e 100%).
Antes
de apresentar os cruzamentos que avaliam a associação da VP com
atributos sociodemográficos, familiares e com outras vivências de
violência, vale a pena atentar para a Tabela 1,
que mostra como os diferentes itens da escala de VP se distribuem na
amostra investigada. Os comportamentos reiteradamente presentes no
relacionamento (frequência sempre/quase sempre), que foram apontados por
mais de 10% dos adolescentes, são: ser criticado pelo que faz ou diz;
não ser encorajado quando tenta atuar de forma autônoma; ser chamado por
nomes desagradáveis e ter adulto dizendo que está errado ao tentar
agir. Alguns atos que compõem o relacionamento familiar abusivo,
relatados com menor frequência (às vezes/raramente), são: culpabilização
por falhas (58,5%); críticas das coisas que o entrevistado faz e diz
(58%); gritos sem motivo (45,4%); não acreditar no entrevistado (53,7%) e
dizer ao entrevistado que ele está errado quando diz e faz alguma coisa
(45,4%).
No relato dos entrevistados sobre quem mais age com VP na família, pode-se verificar no Gráfico 1,
que a mãe é a principal agente desta forma de violência seguida pelo
pai e pelos irmãos. Na categoria outros estão primos e sobrinhos, além
de outras pessoas, fora do circuito familiar, como: amigos, vizinhos,
namorados, professores e uma diretora da escola, também lembrados por
praticar VP sobre o adolescente.
Vale
apontar que, se levada em conta a ordem de prioridade na fala dos
jovens, os mais lembrados em primeiro lugar são a mãe, o padrasto e os
tios, só depois vindo o pai e os irmãos. Interessante ressaltar que
apenas 9,3% dos adolescentes vivem com padrasto e, no entanto, 6,9% do
total de entrevistados se queixam do abuso emocional cometido por esta
figura de autoridade.
Na Tabela 2,
a seguir, pode-se constatar que não há diferença estatisticamente
significativa quanto à vivência de VP, segundo o sexo e quanto à renda
familiar. No que se refere à cor da pele/raça, tem que os adolescentes
que se referem pardos têm duas vezes a chance de sofrer VP severa, por
parte de pessoas de sua família, do que os que se afirmam brancos.
Na associação com a estrutura familiar, na Tabela 3,
observa-se que ter irmãos de diferentes casamentos eleva a chance de
sofrer VP severa (OR = 3,09), se comparado aos entrevistados com irmãos
do mesmo casamento dos pais. Ser filho do meio mostra mais chance de
sofrer VP severa (OR = 3,46) do que as outras posições na família. Ter
só o pai ou só a mãe (família monoparental) indica mais chance de sofrer
VP severa (OR = 2,5) do que se observa entre aqueles que vivem com pai e
mãe (família nuclear). Outra variável apresentada na Tabela 3,
que mostra diferença, segundo a vitimização por VP severa, é satisfação
do responsável com a criança/adolescente sob seus cuidados: aqueles que
se declaram mais ou menos satisfeitos ou insatisfeitos mostram mais
tendência em ter filhos que informam vítimas de VP severa na família (OR
= 2,5) do que os entrevistados que têm responsáveis plenamente
satisfeitos em relação à criança/adolescente. Para as demais variáveis
apresentadas na Tabela 3, não se constata diferença estatisticamente significativa quanto à vitimização por VP.
No
que tange ao uso de substâncias pelos responsáveis, destaca-se o maior
consumo de uso remédios para acalmar ou para dormir entre as mães e o de
álcool ao ponto de embriaguez entre os pais (segundo o relato das
mães/responsáveis), embora não tenha havido associação estatística entre
tal consumo e o relato do adolescente sobre VP na família. Nenhuma mãe
informou utilizar maconha, cocaína, crack ou pasta de coca no último
ano; oito pais relataram tal consumo (segundo o relato da
mãe/responsável), sem diferenciação, segundo presença de VP referida
pelo adolescente (dados não apresentados).
Na Tabela 4,
avalia-se a associação de VP na família com agressão física perpetrada
por familiar no passado e na atualidade e com agressão sexual sem
especificação do agressor. Encontrou-se que o adolescente que
sempre/muitas vezes sofreu agressão física no passado tem 5,17 vezes a
chance de sofrer VP severa, em relação aos que nunca foram agredidos de
tal forma. Igual cenário ocorre em relação à agressão física atual, com
VP severa 2,6 vezes mais frequente do que ocorre entre aqueles que nunca
sofrem agressão física no momento presente. Estes dados mostram haver
redução de agressão física à medida que os entrevistados crescem. Não se
observou diferenciação entre sofrer agressão sexual e VP na família,
valendo destacar que esta forma de agressão foi relatada por dois
adolescentes de ambos os sexos (12-14 anos), envolvendo amigo do irmão e
pessoa sem roupa em carro.
Discussão
A
violência resulta em altos custos econômicos e sociais para a
sociedade, com efeitos emocionais nas famílias, impacto na saúde, na
qualidade de vida e nos anos potenciais perdidos41, indicando a relevância de investigações que objetivem a sua prevenção e a promoção de saúde.
O
hospital, campo desta pesquisa, por ser referência para o SUS na saúde
de crianças, adolescentes e mulheres, tem usuários de toda a região
metropolitana do RJ, como também de outros municípios desse Estado. A
maior parte da população investigada pertence aos estratos sociais menos
privilegiados C e D (segundo ABEP - Associação Brasileira de Empresas
de Pesquisa), com renda mensal familiar entre 1/4 e 1 salário mínimo e
responsáveis com ensino médio incompleto/completo. A clientela que
habitualmente procura os hospitais públicos do SUS29,30 configura
um perfil predominante de clientela de estratos sociais C e D. Assim,
pode-se pensar que, apesar de que os maus-tratos contra crianças e
adolescentes possam ocorrer em qualquer classe social, a violência
estrutural que afeta muitas famílias brasileiras8 é um fator que agrava a capacidade de cuidar.
Estudo
sobre o perfil dos atendimentos em serviços de emergência dos casos de
violência contra crianças e adolescentes, entre 2006 e 2007, no Brasil4
apontou que as maiores diferenças entre meninos e meninas foram
observadas nos atendimentos, cujas vítimas tinham de 5 a 9 anos,
possuíam pele negra (estando a cor de pele parda incluída) e mais
frequentemente do sexo feminino. No presente artigo, notou-se predomínio
do sexo masculino, principalmente em relação à VP severa, porém,
corroborando em relação à cor da pele/raça autorreferida pelos
entrevistados, associada com VP.
No
contexto familiar, a maioria dos entrevistados morava com seus pais, e a
ocorrência de VP severa evidencia elevada frequência (26,4%) de alguns
atos com potencial de causar danos ao desenvolvimento infanto-juvenil,
como culpabilizar, criticar, gritar, desacreditar e desmerecer. A
predominância da mãe na perpetração desta forma de violência encontra
respaldo na literatura30, bem como é relevante a presença de
pai, padrasto, irmão e tio(a). A utilização de tais comportamentos no
cotidiano familiar demonstra a importância de aumentar a identificação
desse abuso, tirando a VP da invisibilidade, tanto por quem sofre como
por quem perpetra.
A
saúde é um dos principais setores sociais capazes de atuar
preventivamente sobre as formas de violência sofridas e praticadas pelo
grupo familiar7. Neste artigo, apenas a insatisfação dos
responsáveis com o adolescente, a estrutura familiar nuclear, a posição
da criança entre os irmãos e o compartilhamento dos mesmos pais pelos
irmãos mostrou-se associada à VP que ocorre no contexto familiar.
Estudos corroboram alguns dos achados como: a) a necessidade de mais
atenção nas brigas entre irmãos, tão naturalizada e banalizada em nossa
cultura, mas que é um sinal de disfunção parental ou familiar42-44 b) na estrutura familiar nuclear, testemunhar violência de parceiros íntimos22 é um tipo frequente de VP; também a satisfação no casamento26
é considerada como um fator de risco para VP. A posição entre os irmãos
na família, a predisposição para ser vítima de VP, o funcionamento e o
envolvimento familiar não encontram respaldo na literatura, podendo ser
objeto de investigações futuras. Pesquisas sobre as interações
familiares são importantes de serem realizadas, considerando os recursos
a serem promovidos sob o enfoque da resiliência45.
Estes
aspectos da dinâmica familiar podem ser detectados pelo profissional de
saúde e pode servir como um sinal de alerta para a prevenção das
relações familiares em situação de violência. Estudo sobre violência
familiar e intervenção do Programa Saúde da Família de Niterói (RJ)
relata que a agressão psicológica que ocorre nos lares das famílias
estudadas é extremamente comum, banalizada e pouco valorizada, tanto
pela sociedade que a produz quanto pelos profissionais de saúde30.
Comumente não demanda notificação ou outras formas de intervenção. É
salientada a necessidade de aumento do diálogo entre profissionais de
saúde e usuários, atividades de educação em saúde e visitas domiciliares
que abordem as questões cotidianas das famílias, constituindo-se em
porta de entrada para a discussão do tema e para a mudança de atitude,
ressaltando a riqueza do vínculo família/equipe de saúde que não deve
ser desperdiçada.
Outro estudo46
com 67 famílias em Montreal (Canadá) com história de maus-tratos às
crianças corrobora a eficácia das intervenções baseadas no apego.
Durante oito semanas as famílias foram visitadas em suas casas e
sensibilizadas sobre regulação do apego e da emoção, e com vídeos sobre
as interações entre pais e filhos. Depois das intervenções percebeu-se
aumento da sensibilidade dos pais, mais segurança no apego e redução na
desorganização das crianças.
No
que se refere à associação observada entre VP e agressão física (no
passado e no presente) na família, se verificou a elevada frequência
desta forma de agir na família, bem como sua redução à medida que o
adolescente se desenvolve. A maior presença da violência física dentre
os que sofrem VP indica a confluência existente entre as diferentes
formas de violência. Este dado reforça a necessidade que a nossa
sociedade tem em reavaliar medidas educativas com uso da força, ainda
tão banalizadas45. A associação das diferentes formas de violência, evidenciadas em diversos estudos6,7,11,23,29
demonstra como é relevante a detecção pelos profissionais de saúde dos
conflitos existentes na família e das estratégias "educativas" por elas
adotadas.
Limitações
do estudo: o tamanho da amostra que dificulta encontrar associações
estatísticas, obrigando a agregar categorias de muitas variáveis que
seriam melhor estudadas desagregadas; a não existência de um ponto de
corte para a escala de VP com comprovada sensibilidade e especificidade44,
que dificulta a avaliação de prevalência de VP entre estudos nacionais e
internacionais. Por ser um hospital de referência, pode apresentar uma
população específica, com dificuldades especiais onde a ocorrência da VP
seja diferenciada. Embora a aceitabilidade da pesquisa tenha sido muito
boa e os procedimentos de coleta adotados terem garantido a privacidade
das informações prestadas, outra provável limitação do estudo diz
respeito à exigência legal da assinatura dos pais ou responsáveis do
Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, para a abordagem de
adolescentes em pesquisas. O fato de os mesmos representarem os
principais perpetradores, confirmado nesta investigação e apontado na
maioria dos estudos sobre maus-tratos infantis, pode impedir ou
dificultar a participação e a autonomia de adolescentes referirem abusos
durante as entrevistas (nem sempre com o grau de privacidade ideal),
revelando magnitude da prevalência do evento menor do que aquela que
ocorre na realidade.
Conclusão
Para
finalizar, dois aspectos são ressaltados em função de sua extrema
relevância no enfrentamento da VP familiar. Um diz respeito à magnitude e
aos impactos da VP na saúde de indivíduos em pleno processo de
desenvolvimento, o que exige o desenvolvimento de um trabalho em rede de
instituições com este público, pois a complexidade da abordagem dos
casos de VP contra os adolescentes requer um cuidado multidisciplinar
com abordagens individuais, familiares e comunitárias.
Outro
aspecto se refere à redução da subnotificação de VP pelos serviços de
saúde, pois a identificação, a sensibilização, a capacitação e a
intervenção realizada pelos profissionais de saúde coloca a notificação
como um instrumento importante de proteção e não de denúncia e punição.
Assim,
a identificação e a prevenção da violência contra adolescente é de
fundamental importância para determinar o seu rompimento e para impedir a
(re)produção do ciclo da violência intrafamiliar.
Colaboradores
CD
Abranches participou da redação, da concepção e do delineamento e
interpretação dos dados do artigo; SG Assis participou da elaboração, da
revisão crítica e interpretação dos dados do artigo; TO Pires
participou na análise dos dados do artigo.
Fonte: Scielo





